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Avaliar uma empresa – Análise Fundamental

O que os resultados de uma empresa nos dizem, porque é que uma ação cai depois de anunciar lucros a subir, e o peso das expectativas e do guidance.

Por Ricardo Alves · · 6 min de leitura

Para avaliar uma empresa, é necessário que, pelo menos, façamos duas análises importantes. Uma é a análise técnica do momentum em que a cotação se encontra, a outra é uma análise fundamental, acerca dos fundamentos de uma empresa (que é, discutivelmente, a mais importante, especialmente quando falamos no longo prazo). Neste espaço, como prometi no bê-á-bá do investimento em ações, vou explicar os conceitos básicos da análise fundamental e como podemos fazer uma análise expedita à empresa candidata a pertencer ao nosso portefólio.

Para analisarmos os fundamentos de uma empresa, a divulgação dos resultados (sejam estes trimestrais, semestrais ou anuais) é a nossa melhor amiga. Na Europa, a lei obriga uma empresa cotada a publicar contas anuais e semestrais, e muitas publicam de três em três meses por opção própria; nos Estados Unidos, o trimestre é obrigatório. De uma forma ou de outra, conseguimos ter uma ideia de como a empresa está a crescer, qual é a estratégia ou plano para o futuro, e quais são os maiores receios para o desenvolvimento desta. Através deste evento conseguimos avaliar conceitos que irei explicar abaixo.

Análise fundamental com base nos resultados

Existem vários conceitos básicos que precisamos de compreender para conseguir decifrar os resultados de uma empresa. Dentro destes, temos as receitas (Revenue), os lucros brutos e líquidos (Gross e Net profit ou Earnings), o EBITDA (Earnings before interest, taxes, depreciation and amortization), a dívida bruta e líquida (gross e net debt), o capital próprio (Equity), entre outros. Não os vou explicar neste espaço, pretendo explicá-los em espaço próprio.

Após compreendermos estes conceitos, conseguimos perceber o que os resultados nos estão a dizer sobre a empresa. De forma simplificada, permite-nos entender se efetivamente a empresa se encontra em crescimento, se existe algum alerta que possamos identificar a priori, como por exemplo diminuição das margens, ou aumento exponencial da dívida.

Temos também de compreender a situação macroeconómica atual e a perspetiva de evolução dessa situação. Existem empresas cíclicas e empresas que estão dependentes do preço de um bem primário para o aumento da sua receita. Por exemplo, e falando de empresas portuguesas para facilitar a compreensão, a Altri está dependente do preço da pasta de papel para o aumento da sua receita (se as despesas se mantiverem e o preço da pasta de papel diminuir, a margem irá diminuir também, diminuindo os lucros); a Galp provavelmente aumentará o seu lucro líquido, se o preço do petróleo aumentar; a EDP, com o preço da eletricidade; até mesmo a Jerónimo Martins e a Sonae, cujas margens seriam pressionadas por uma inflação alimentar que subisse muito e depois abrandasse ou até ficasse negativa, fazendo com que as receitas estagnassem sem que os custos descessem ao mesmo ritmo.

O último caso é o que vale mais a pena olhar com calma, porque aconteceu, e porque o sítio onde apareceu não foi o que se esperava. No primeiro semestre de 2026, a Jerónimo Martins vendeu mais 5,1%, 18,3 mil milhões de euros, e ainda assim lucrou menos 3,5%, 260 milhões de euros, num semestre que Pedro Soares dos Santos descreveu como significativamente mais exigente do que o esperado. Na Polónia, a Biedronka operou com deflação no cabaz e as lojas comparáveis venderam apenas 0,2% mais, embora os volumes tenham crescido cerca de 5%. Ou seja, vendeu bastante mais produto e recebeu quase o mesmo dinheiro.

Só que a margem não foi por onde se pensava. O EBITDA do grupo subiu 7,6% e a margem melhorou de 6,6% para 6,8%, porque a empresa mexeu na composição das vendas e apertou os custos. A deflação apareceu nas vendas comparáveis, e o lucro caiu por baixo do EBITDA, não na margem. E a Sonae, no mesmo semestre, fez 5,6 mil milhões de euros de receitas, mais 6,3%, e aumentou o lucro 20,5%, para 123 milhões. Duas empresas do mesmo país, no mesmo setor e no mesmo semestre, com o lucro em sentidos opostos, o que mostra que o contexto macroeconómico explica muito mas nunca explica tudo.

Para além do referido, temos também empresas que são sólidas e embora não tenham uma perspetiva de crescimento muito grande, poderão ser muito boas opções de investimento. E porquê? Basicamente porque têm retornos grandes para os seus acionistas, através de dividendos. Por exemplo, a NOS, que poderá ter dificuldades de crescimento, quer pelo peso do dividendo que distribui, quer por causa da operadora romena Digi, pagou a 8 de maio de 2026 um dividendo de 0,45 euros por ação, aprovado em assembleia geral a 22 de abril. Com uma cotação a rondar os 5,20 euros, dá um dividend yield de cerca de 8,7% bruto. Repare-se que o yield depende do preço a que se compra, e não do preço a que alguém comprou, por isso é uma conta que cada um tem de fazer para si.

E há aqui um detalhe que vale a pena olhar antes de nos entusiasmarmos com os 8,7%. Desses 0,45 euros, 0,35 são dividendo ordinário e 0,10 são dividendo extraordinário. Um extraordinário é, por definição, o que a empresa não se compromete a repetir. Quem faça contas ao futuro com os 8,7% está a assumir que ele se repete. Aqui a grande questão é se a NOS conseguirá manter a sua cotação no futuro, porque no dia de ex-dividendo, a ação corrige o dividendo que é pago.

E a Digi já deixou de ser uma ameaça futura para ser uma ameaça presente. Entrou no mercado português em novembro de 2024 e fechou o primeiro semestre de 2026 com cerca de 960 mil serviços ativos, mais 21,7% do que um ano antes. Do outro lado, a NOS fechou o mesmo semestre com a receita das telecomunicações a cair 0,7%, e a do consumo, que é onde a Digi bate, a cair 0,3%.

Mas a receita do grupo subiu 1,0%, para 918,5 milhões de euros, porque o que se perdeu nas telecomunicações se ganhou nas empresas e nas tecnologias de informação. E o EBITDA subiu 2,3%, com a margem a passar de 44,0% para 44,6%. Quem olhasse só para a linha de cima diria que a Digi não fez mal nenhum à NOS, e quem olhasse só para o consumo diria o contrário. As duas coisas estão nas mesmas contas, e é por isso que ler resultados é abrir os segmentos.

Expectativas

Parece tudo muito simples, não é? Pois, enganas-te se o achares. Isto porque o mercado está sempre «à frente» da atualidade e grandes alterações nas cotações do mercado correspondem a alterações da perspetiva do mesmo, a longo prazo, seja porque evento for.

Nunca estranhaste porque é que empresas que têm aumentos dos lucros bastante significativos, nos dias após os resultados, têm quedas colossais? Pois, isto tem tudo a ver com as expectativas do mercado. Uma empresa pode apresentar resultados bons, mas se forem inferiores às expectativas do mercado para aquela empresa, provavelmente vão existir acionistas a querer vender as suas ações e trocá-las por ações noutras empresas mais promissoras.

É sempre importante estudar as expectativas dos analistas antes de verificar os resultados das empresas, porque esta estimativa, seja positiva ou negativa, muito provavelmente já está refletida na cotação atual da ação.

Guidance

Por fim, e não menos importante, temos o Guidance da empresa, que é dado na apresentação dos resultados pela empresa, e que é nada mais, nada menos, que a estratégia ou plano para o futuro da empresa e os maiores receios para o desenvolvimento desta. Eventualmente, se as demonstrações financeiras (a nível de receitas, margens, lucros, etc.) forem melhores que as expectativas, mas o Guidance dado pela empresa pior que o esperado, podemos verificar uma desvalorização das cotações destas empresas.

Conclusão

A análise fundamental é muito importante para escolhermos os «cavalos certos», sendo esta tão importante quanto complexa, isto porque os fatores macroeconómicos são dinâmicos e em constante alteração.

Espero ter conseguido dar a entender aquilo que é o básico da análise fundamental, melhorando a tua perceção e compreensão do que é avaliar uma empresa. Havia muitos mais temas para expor aqui, mas cingi-me apenas àquilo que acho que é mais essencial de compreender.

Existe ainda outra análise que precisa de ser feita antes de escolhermos uma empresa para investir, essa é a análise técnica!

Obrigado pela tua disponibilidade!

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