Bê-á-bá do investimento em ações
Porque é que o dinheiro parado perde valor, o que são ações e ETF, como escolher uma corretora e o que o juro composto faz a 20 mil euros em 33 anos.
Por Ricardo Alves · · 7 min de leitura
Neste artigo, vou tentar simplificar ao máximo o investimento nos mercados financeiros, neste caso, em ações, comprometendo-me a ser o mais honesto e factual possível.
Em primeiro lugar, quero ressalvar que investir em ações não é para todos os tipos de personalidades. O investimento em ativos financeiros sem capital garantido poderá não ser o mais adequado para todas as pessoas, nem isto é um incentivo a ires «a correr» investir o teu dinheiro. Ficam apenas aqui alguns factos e a minha experiência nestes ativos financeiros. Temos de estar sempre cientes que, quem investe, corre sempre o risco de perder dinheiro.
Bom, disclaimers à parte, vamos lá então começar.
Porquê investir em ações, se o capital não é garantido?
Todos nós já guardámos dinheiro numa conta à ordem, ou noutro sítio qualquer, em que este dinheiro fica «parado» e esquecido. Podemos pensar, bom, mas o dinheiro que lá está esquecido é garantido, e sempre que precisar, tenho-o lá, assim nunca irei perder dinheiro. Pois, enganas-te! Porque o dinheiro é simplesmente papel! Podendo ser impresso vezes sem conta, no nosso caso, pelo Banco de Portugal, desde que a emissão monetária seja aprovada, pelo Banco Central Europeu. Aquilo que realmente importa para as nossas vidas é o poder de compra com o dinheiro que temos. E o poder de compra é influenciado por uma coisa que ultimamente se ouve falar muito, que é a inflação! Com uma inflação alta, o nosso poder de compra diminui. Se tivermos o nosso dinheiro parado e tivermos uma inflação anual de 2,3% (inflação confirmada pelo INE – Instituto Nacional de Estatística para Portugal em 2025), perdemos 2,3% de poder de compra num ano, porque o nosso dinheiro, simplesmente, vale menos, ou os preços dos bens e serviços estão 2,3% mais caros.
Existem opções para combater a inflação, investindo o dinheiro em opções com capital garantido (obrigações, certificados de aforro, entre outros), mas como é óbvio, estas opções têm potencial de retorno menores, embora sejam certos. Para quem opte por estas alternativas para combater a inflação, é legítimo e melhor que ter o dinheiro parado, no entanto, por exemplo para a opção que está mais na moda, os certificados de aforro, podemos ver que, com uma inflação em Portugal de 2,3% em 2025, mesmo tendo o nosso dinheiro num destes certificados, com taxas de retorno líquidas por volta de 1,8% anuais, continuamos a perder poder de compra por causa da inflação!
Ao investir em ações, ou ETFs de ações (Exchange-traded funds), que basicamente são índices compostos por conjuntos de ações, conseguimos retornos maiores que conseguem efetivamente combater a inflação e aumentar o nosso poder de compra, mas explicarei melhor estes conceitos mais à frente.
O que são ações?
Ações são, nada mais, nada menos, do que frações de empresas. Ao comprarmos ações, estamos a comprar uma pequena parte de uma empresa. Agora, porque haveria uma empresa de vender frações suas? A resposta é simples! Para receber financiamento por parte dos acionistas, ou seja, para que possa obter capital, para se alavancar e crescer mais depressa. Para além disto, o simples facto de uma empresa entrar em bolsa, aumenta a sua visibilidade e credibilidade, até porque tem de partilhar periodicamente os seus resultados e o seu plano a longo prazo (Guidance). As empresas emitem ações através de IPOs (Initial Public Offering) ou em português, ofertas públicas iniciais, que é o momento, em que uma empresa mete à venda as suas ações a um preço e que a partir daí, essas ações começam a ser negociadas no mercado livre, em bolsa, recebendo uma quantidade de capital por parte dos acionistas, consoante o número de ações e preço a que as emite. Para fazer um IPO, a empresa tem de passar por um processo complexo e demoroso, mas isso fica talvez para mais tarde, não vou complicar mais, para já.
Mas como consigo comprar ações de uma empresa?
Para comprarmos e vendermos ações precisamos de um intermediário financeiro, mais concretamente, um banco ou uma corretora. Para tal, precisamos de abrir uma conta de valores mobiliários junto da instituição que escolhermos. Estas instituições cobram comissões para realizarem as ordens de compra e venda que pretendemos, por efetuarmos transações num determinado mercado e até pelo câmbio da moeda, quando compramos ações em mercados que não usam o euro (se bem que nalgumas situações conseguimos comprar ações fora da Europa com euros, através do banco ou corretora), entre outras. Pela minha experiência, os bancos, por norma, cobram taxas muito elevadas, desmotivadoras para quem quer começar a investir com pouco dinheiro. Já as corretoras mais conhecidas, que não deixam de estar relacionadas com bancos, por norma, cobram taxas mais acessíveis. Para escolher a tua corretora, aconselho-te a verificar os preçários da mesma, adaptando o preçário da mesma, à tua estratégia de investimento, porque todos os tarifários têm as suas nuances. As mais conhecidas são, por exemplo, a Degiro, XTB, Trading212, IBKR, eToro, entre outras.
Já escolhi um intermediário financeiro, e agora?
Na minha ótica, generalizando, existem duas posturas para investir em ações.
A primeira é para quem quer investir com o mínimo esforço, sem necessidade de aprender análise técnica e fundamental de empresas, sendo apenas necessário ver o nosso investimento de vez em quando, e acompanhar genericamente as notícias e o sentimento económico.
Esta postura é uma postura de investimento num ETF, um conjunto de ações. Quando apostamos nos «cavalos todos», corremos riscos menores, mas os nossos lucros estão condicionados como é óbvio. Não obstante, os retornos podem ser razoáveis, e acima de tudo, superiores à inflação.
Existem muitos ETFs por onde escolher, apresento-te dois bastante comuns.
S&P 500

Como podemos ver, pelo gráfico, o S&P 500 é um ETF (composto pelas 500 maiores empresas americanas), que embora tenha tido anos de queda (crise 2008, Covid-19 em 2020, etc), tem uma tendência clara de subida. No longo prazo, desde 1957, tem uma valorização média de cerca de 10% ao ano, com os dividendos reinvestidos, que se encontra bastante acima da inflação.
Fazendo umas pequenas contas:
| Ano | Capital (€) | Ganho anual (€) |
|---|---|---|
| 0 | 20.000,00 | 2.000,00 |
| 5 | 32.210,20 | 3.221,02 |
| 10 | 51.874,85 | 5.187,48 |
| 15 | 83.544,96 | 8.354,50 |
| 20 | 134.550,00 | 13.455,00 |
| 25 | 216.694,12 | 21.669,41 |
| 30 | 348.988,05 | 34.898,80 |
| 33 | 464.503,09 | 46.450,31 |
Com capital inicial de 20 mil euros, e um lucro de 10% ao ano, podemos ver que o nosso capital investido cresce exponencialmente.
VWCE (da Vanguard)
Este índice é composto por um conjunto de aproximadamente 3700 ações, que basicamente representa a economia no mundo inteiro. É um ETF com menos risco que investir apenas na América, mas o seu retorno já é mais reduzido (cerca de 8% ao ano).
| Ano | Capital (€) | Ganho anual (€) |
|---|---|---|
| 0 | 20.000,00 | 1.600,00 |
| 5 | 29.386,56 | 2.350,92 |
| 10 | 43.178,50 | 3.454,28 |
| 15 | 63.443,38 | 5.075,47 |
| 20 | 93.219,14 | 7.457,53 |
| 25 | 136.969,50 | 10.957,56 |
| 30 | 201.253,14 | 16.100,25 |
| 33 | 253.520,99 | 20.281,68 |
Bater o mercado
A segunda postura de investidor (e aquela que eu optei) é uma postura que tem como objetivo materializar uma expressão que é muito proferida pelos investidores que é «bater o mercado», ou seja, ter retornos acima de qualquer índice e ETF, neste caso, em vez de investir em «todos os cavalos», investir nos «cavalos certos».
Para conseguir «bater o mercado», temos de escolher as empresas certas, conseguindo retornos num espaço de tempo que definirmos na nossa estratégia, seja esta de curto, médio ou longo prazo.
Pela minha experiência, não existe estratégia certa, o mais importante é sabermos avaliar uma empresa e compreendermos os momentums do mercado.
Mas uma coisa é certa, para definirmos a nossa estratégia e para avaliarmos uma empresa, temos de ter em conta duas coisas que para mim são as mais importantes, independentemente do contexto macroeconómico. Estas coisas são, a análise técnica e a análise fundamental da empresa.
São estes dois tipos de análise, que depois de feitas, vão-nos possibilitar escolher as empresas certas e obter retornos acima da média.
É um caminho longo de constante aprendizagem, mas também um caminho muito prazeroso para quem quer ir mais além e ter os seus lucros consoante a sua performance.
Para teres uma noção, se conseguirmos superar o índice S&P 500 e ter lucros na ordem dos 15-25% anuais (e ao contrário do que se lê, sim, estes retornos são possíveis, com um investimento fundamentado e gestão de risco), o crescimento do nosso capital é exponencial.
| Ano | Capital (€) | Ganho anual (€) |
|---|---|---|
| 0 | 20.000,00 | 4.000,00 |
| 5 | 49.766,40 | 9.953,28 |
| 10 | 123.834,73 | 24.766,95 |
| 15 | 308.140,43 | 61.628,09 |
| 20 | 766.752,00 | 153.350,40 |
| 25 | 1.907.924,33 | 381.584,87 |
| 30 | 4.747.526,28 | 949.505,26 |
| 33 | 8.203.725,40 | 1.640.745,08 |
Como podes ver, o crescimento é exponencial e ao fim de muito tempo compensa o esforço de quem consegue «bater o mercado». Neste caso, ao fim de 33 anos, onde se lê 464 mil euros no S&P 500 e 253 mil no VWCE, lemos 8 milhões de euros num «batedor de mercado» com retorno médio de 20%.
Mas como o artigo vai longo, mostrarei como avaliar uma empresa e o que é a análise técnica e a análise fundamental num próximo artigo! Um bem-haja!
Obrigado pela tua disponibilidade!
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