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Mota-Engil: O Colosso Português. Valerá o Risco?

Análise fundamental e técnica à Mota-Engil aos 4,48€, porque acho a construtora portuguesa subvalorizada.

Por Ricardo Alves · · 11 min de leitura

Empresa
Mota-Engil, SGPS, S.A.
Ticker
EGL
Bolsa
Euronext Lisboa
Setor
Engenharia e Construção
Cotação na data
4,48 €
ISIN
PTMEN0AE0005

Resumo Sucinto

Acho a Mota-Engil fundamentalmente subvalorizada. Aos 4,48€, cotação do fecho de hoje, e admitindo que a gestão cumpre os 180M€ de lucro líquido que prometeu para 2026, a empresa negocia a um P/E de 7,6, quando um múltiplo de 15, que me parece aceitável para o setor, daria uma cotação perto dos 8,8€. O argumento central é simples. O volume de negócios do guidance está praticamente atingido, falta melhorar a rentabilidade, e é exatamente isso que os números dos últimos três anos mostram a acontecer, com a margem líquida a subir de 2,0% para 2,5% e o backlog em máximos, nos 16.153M€. Contra isto pesa a dívida a crescer, as geografias onde opera e a sensibilidade aos ciclos económicos. Pelo menos até aos resultados de dia 27 de agosto, mantenho a posição que tenho vindo a acumular desde 2024.

Números que considero relevantes

202320242025
Backlog (M€)12.93615.60216.153
Volume de Negócios (M€)5.5525.9515.301
EBITDA (M€)837941979
Margem EBITDA15,1%15,8%18,5%
Dívida Líquida (M€)1.1751.7321.941
Dívida Líquida / EBITDA1,40x1,84x1,98x
Resultado Líquido (M€)113123133
Margem Líquida2,0%2,1%2,5%

Duas notas sobre esta tabela. O EBITDA de 2024 aparece como 941M€ e não como os 955M€ que o relatório desse ano reportou, porque o grupo reexpressou o valor no relatório de 2025, por uma alteração à política contabilística dos subsídios governamentais. E uso o valor reexpresso para as três colunas serem comparáveis entre si. É ele que também explica o rácio de 1,84x em 2024. E o resultado líquido é o atribuível ao Grupo, não o consolidado do exercício, que em 2025 foi de 248M€.

Introdução breve

Quero começar por referir que, pese embora detenha ações desta cotada, farei o meu melhor para ser o mais imparcial possível na minha análise.

Achei oportuno analisar esta empresa, porque irá apresentar resultados do primeiro semestre na próxima semana, dia 27 de agosto, quinta-feira.

É uma empresa que já sigo há algum tempo, com uma história grande, que faz dela uma empresa com processos maduros, e geograficamente bastante dispersa. Por razões de tamanho do artigo, não vou detalhar o percurso da empresa, mas tem uma história bastante interessante.

Uma coisa que gosto na empresa é o facto de a Holding da família Mota ser detentora de uma parte grande da empresa e ter bastante skin in the game. A outra grande participação é composta pela China Communications Construction Company, Ltd., uma empresa estatal chinesa e uma das maiores empresas de engenharia e construção do mundo.

Estrutura acionista da Mota-Engil, com a Mota Gestão e Participações a deter 40,32% e a Epoch Capital Investments (CCCC) 32,41%
Os dois maiores acionistas da Mota-Engil. Fonte: Mota-Engil, página do investidor, consultada a 19 de agosto de 2026.

Também tenho seguido o trabalho e a estratégia do Eng. Carlos Mota Santos e tenho bastante apreço pela sua liderança.

A Mota-Engil SGPS, S.A. não é só Engenharia e Construção, é uma sociedade enorme, com muito negócio que vai para lá daquilo por que normalmente é conhecida (Engenharia e Construção).

Para quem nunca olhou para ela, o essencial é isto. O grupo ganha dinheiro a construir infraestruturas por conta de outros, estradas, ferrovia, aeroportos, portos, barragens e edifícios, e já o fez em cerca de 50 países.

Hoje é África que pesa mais no volume de negócios, com 40%, seguida da América Latina, com 38%, e só depois a Europa, com 7%. Fora da construção, e é isto que costuma passar ao lado, há os serviços de engenharia industrial, que são a prestação de serviços a minas e um dos motores de crescimento do grupo. Há o Ambiente, com a recolha e o tratamento de resíduos através da Suma e da EGF, que vale sozinho 12% do volume de negócios. E há as concessões de estradas e pontes através da Lineas, cerca de 2.500 quilómetros que incluem as duas pontes de Lisboa. Depois há ainda a energia, o imobiliário e uma área de capital, com pesos pequenos. Deixo aqui a repartição do volume de negócios de 2025, que dá as duas coisas ao mesmo tempo, o peso de cada geografia e o peso de cada área de negócio.

Repartição do volume de negócios da Mota-Engil em 2025 por unidade de negócio, África Engenharia e Construção 40%, América Latina Engenharia e Construção 38%, Ambiente 12%, Europa Engenharia e Construção 7%, Capital 2% e MEXT 1%
O volume de negócios de 2025, por unidade de negócio. Fonte: relatório e contas de 2025, página 57.

Caso queiram conhecer melhor, aconselho a lerem os relatórios e contas.

Análise Fundamental

Com base na parte fundamental da empresa, e com os números do capítulo antecedente à introdução em mente, assim como a restante informação dos relatórios e contas, inclusive o guidance dado para o final de 2026, podemos aferir que o grande foco atual da gestão é melhorar a rentabilidade do negócio.

Pelo que os números nos dizem, este objetivo está a ser cumprido, face ao aumento da margem líquida e, consequentemente, do resultado líquido. Este aumento da margem resulta não só de uma eficiente gestão do Capex e Opex, mas também da diminuição de algo que tem tirado muito lucro ao grupo, os interesses minoritários. Através de compras de parceiros, como por exemplo a ECB no Brasil, o grupo tem conseguido diminuir o lucro que partilha, em consórcio, com outras empresas, e isso, como é óbvio, faz aumentar a margem líquida e, consequentemente, o resultado líquido atribuível à Mota-Engil. Outros fatores que estão a aumentar as margens são uma aposta maior em projetos com uma maior margem operacional, como projetos em África e na Engenharia Industrial (setor da mineração), e o facto de estarem a ser ganhos concursos com dimensão cada vez maior, o que reduz o Capex e toda a logística envolvente versus o retorno que o projeto proporciona.

Vemos que o backlog tem aumentado bastante e está com valores impressionantes. Por curiosidade e para dar a conhecer os maiores projetos da Mota, deixo aqui uma imagem tirada do trading update do primeiro trimestre de 2026.

Principais projetos em carteira da Mota-Engil, por intervalo de valor, país, segmento, ano de início e cliente
Os maiores projetos em carteira, por valor, país, segmento e cliente. Fonte: trading update do primeiro trimestre de 2026.

E para se ver de onde vem essa carteira, deixo também a sua repartição pelas unidades de negócio.

Repartição da carteira de encomendas da Mota-Engil em 2025 por unidade de negócio, América Latina Engenharia e Construção 33%, África Engenharia e Construção 31%, África engenharia industrial 21%, Europa Engenharia e Construção 12%, e Ambiente com Capital e MEXT 3%
A carteira de encomendas de 2025, pelas mesmas unidades de negócio. Fonte: relatório e contas de 2025, página 64.

No entanto, não é preciso só ter uma carteira de encomendas enorme, é também preciso ter a capacidade de converter esse backlog. Neste aspeto, podemos ver que, no que respeita ao volume de negócios, este reduziu em 2025. A justificação da gestão para este acontecimento foram os atrasos das obras em Portugal, o que até é uma realidade. Honestamente, para mim, este dado nem é crítico, porque o volume de negócios previsto pela gestão até ao final de 2026 é de 6040M€, ou seja, já está praticamente atingido. Não obstante, é preciso continuar a acompanhar atentamente a tendência deste indicador.

Podemos ver também que, pelos números acima apresentados, o grupo tem aumentado a sua dívida líquida, o que considero normal, face ao aumento do backlog, que não gera logo retorno imediato. É importante notar que, pese embora a dívida líquida / EBITDA tenha aumentado, este rácio, na minha opinião, continua aceitável para o setor (a gestão comprometeu-se a manter o rácio abaixo de 2x no seu guidance para 2026).

Por falar em guidance, gostava também de mostrar o caminho que a gestão está a seguir para 2026 e a razão pela qual acho a empresa fundamentalmente subvalorizada.

Valores financeiros do grupo Mota-Engil em 2020 e 2022 e as metas do guidance Building26 para 2026
As metas do Building26 para 2026, ao lado dos números de 2020 e 2022. Fonte: Building26, Mota-Engil.

Como podemos ver, e conforme abordado anteriormente, para cumprir com este plano dado pela gestão, é necessário aumentar a rentabilidade (aumentar a margem líquida dos atuais 2,5% para os 3%), isto porque o volume de negócios está praticamente atingido. Honestamente, mesmo com o atual aumento do preço do petróleo, acredito na gestão, que mais não seja pelo trunfo da estratégia de rotação de ativos que têm aplicado.

Antes de fazer as contas do valor intrínseco da empresa, quero só deixar uma nota sobre o petróleo, porque vejo aqui uma oportunidade que pode passar despercebida. Como sabemos, este aumento do preço do petróleo tem consequências más para o setor: mais inflação, mais taxas de juro, maior custo da dívida, mais custo de operação… aquele carrossel de negatividade que já conhecemos. No entanto, vejo aqui uma oportunidade para a Mota, porque, como conseguimos ver pelo backlog mostrado anteriormente, alguns dos clientes da Mota dependem do petróleo para as suas receitas, o que poderá fomentar um aumento do investimento por parte deles, e, consequentemente, um aumento na qualidade do backlog da Mota. Posso dar um exemplo para perceberem. Angola fez o orçamento de estado de 2026 com um preço de referência de 61 dólares por barril. Ora, por causa da guerra do Irão, temos tido o barril de petróleo constantemente acima dos 80 dólares. O que acontecerá a este excedente orçamental? Poderemos ver um aumento da despesa pública. Assim, é normal esperar que haja mais obras em Angola do que o previsto, obras que podem ser aproveitadas pela Mota-Engil. Quem diz Angola, diz a Nigéria e recentemente o Brasil, entre outros clientes.

Agora, partindo para as contas, e confiando que a gestão cumpre com as suas promessas, pelas razões acima descritas, com um lucro em 2026 de 180M€ e tendo em conta as 306.775.950 ações que compõem o capital social da empresa, dá-nos um EPS arredondado de 0,587.

180.000.000 € ÷ 306.775.950 ações = 0,587 € por ação

Ao valor atual da ação, se calcularmos o P/E ratio, temos um P/E de 2026, com o preço atual, de 7,6:

4,48 € ÷ 0,587 € = 7,63 de P/E

Sendo conservador, e sabendo que temos de ter outros fatores em conta, como por exemplo a dívida, assim como outros que abordarei em baixo, um P/E aceitável para a Mota-Engil, tendo também em conta construtoras comparáveis, seria à volta dos 15. E é este o P/E que acho aceitável para o backlog, dívida e conjuntura macroeconómica atual em redor da Mota. É importante referir ainda que, se a Mota conseguir entregar este guidance, surpreendendo os analistas, terá provavelmente uma expansão dos múltiplos atuais.

Com um P/E de 15, que não considero nada de transcendente, a Mota-Engil deveria cotar, caso cumpra os 180M€ de lucro líquido no final deste ano, o valor de 8,8 euros, ou seja, praticamente o dobro do preço atual.

15 × 0,587 € = 8,805 € por ação

Mesmo não cumprindo totalmente o guidance, acredito que há um bom espaço de manobra para que, ficando o resultado líquido abaixo das expetativas da gestão, a ação continue a um preço atrativo.

A empresa divulgou também recentemente um guidance para 2030, mas não me quero focar nesse guidance porque é mais distante e, como tal, menos conferível no curto prazo.

Análise Técnica

Relativamente à análise técnica, aquilo que consigo ver, desde setembro de 2024, é um padrão de Elliott Waves seguido de uma lateralização massiva (visão semanal):

Gráfico semanal da Mota-Engil, com o padrão de Elliott Waves desde setembro de 2024 seguido de uma lateralização prolongada
Mota-Engil na visão semanal. Fonte: TradingView.

Mais no curto prazo, na visão diária, estamos dentro de um triângulo, que duvido que quebre antes dos resultados:

Gráfico diário da Mota-Engil, com a cotação a mover-se dentro de um triângulo
Mota-Engil na visão diária. Fonte: TradingView.

Importante referir também que fomos à Golden Pocket da descida da suposta onda C das Elliott Waves, e a cotação continuou a descer:

Gráfico da Mota-Engil com a Golden Pocket da descida da suposta onda C
Mota-Engil, com a Golden Pocket marcada. Fonte: TradingView.

Sou da opinião que, a nível de tendência, os resultados que aí vêm serão determinantes, tendo em conta a acumulação / distribuição massiva que está a ocorrer e que dificulta a análise técnica. A nível do indicador estocástico, tanto na timeframe diária como na semanal estamos bastante neutros.

A nível técnico, depois de um padrão de Elliott Waves, depois da onda C, a tendência retorna à tendência inicial, pelo que o mais expetável seria voltarmos a uma tendência de subida.

Honestamente, acho que, para este caso em específico, até pela proximidade dos resultados, não conseguimos obter muita informação relevante, pelo que não tenho muito mais a acrescentar. Resta-nos esperar pelos resultados.

Riscos

Como é óbvio, existem riscos subjacentes que quero enumerar:

1. Desvalorização das moedas nativas dos países onde a Mota opera. Pese embora a Mota esteja a fazer os contratos maioritariamente em dólares, ainda está a receber alguma da sua receita em moedas locais como o kwanza, peso mexicano, real, etc. Alguns destes países têm inflação elevada e é sempre um risco a ter em conta.

2. Geografias onde opera. A geografia onde a Mota opera é um pau de dois bicos. Por um lado, são geografias com um grande potencial de crescimento, por outro, são geografias com elevados níveis de corrupção e algumas delas com muita instabilidade política e social. É um fator que acredito ser predominante para a Mota ter múltiplos reduzidos atualmente.

3. Posições short com peso. De momento, de acordo com a CMVM, temos posições short relevantes abertas. Uma delas da Muddy Waters, que é um fundo americano bastante relevante. Inclusive, este fundo até tem um processo em tribunal contra a Mota-Engil e o atual CEO, Carlos Mota Santos, por difamação. Os números, à data de hoje, são estes:

DetentorPosiçãoComunicado
Eleva Capital0,93%21/01/2026
Muddy Waters Capital Domino Master Fund0,57%20/11/2024
Total declarado1,50%

4. Evolução macroeconómica negativa. Vivemos em tempos desafiantes, e o setor da Engenharia e Construção é bastante sensível aos ciclos económicos. É preciso ter isso em conta.

Conclusão

Pela análise que fiz, posso concluir que os resultados do primeiro semestre de dia 27 de agosto de 2026 poderão ser determinantes e agirem como catalisador para esta lateralização de curto prazo. Não obstante, ao dia de hoje considero-a com uma cotação atrativa. Tudo dependerá se a gestão da empresa consegue cumprir com o guidance dado e consegue ganhar a confiança dos investidores. É uma cotada com um Beta relativamente elevado, face à pouca liquidez disponível (só temos 20-30% de free float), pelo que, para existirem compras ou vendas de quantias elevadas, é normal o preço variar mais. Eu, honestamente, pretendo manter a minha posição, que, para o meu portefólio, já tem uma dimensão considerável (tenho vindo a acumular desde 2024).

Espero não ter sido muito maçador, e que tenha contribuído com alguma coisa para dar a conhecer esta empresa!

Os meus cumprimentos e bons negócios!

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